4. ESPECIAIS 40 ANOS 31.10.12

1. ESPECIAL 40 ANOS - QUATRO DCADAS QUE MUDARAM O BRASIL E O MUNDO
2. POLTICA - A DEMOCRACIA VENCEU
3. COMPORTAMENTO - COMO ANDOU O BRASIL
4. MEIO AMBIENTE - BARULHO EM NOME DO PLANETA
5. EDITORA TRS 40 ANOS
6. ESPORTE - A DESCOBERTA DA VELOCIDADE
7. ECONOMIA - O GENERAL E O METALRGICO
8. INTERNACIONAL - DE NIXON A OBAMA
9. TERRORISMO - SOB O DOMNIO DO MEDO
10. CULTURA - O FOLHETIM GANHOU A TEV

1. ESPECIAL 40 ANOS - QUATRO DCADAS QUE MUDARAM O BRASIL E O MUNDO
Se olharmos as ltimas quatro dcadas pelo retrovisor do Brasil, vamos entender como tangenciamos as curvas do regime militar e passamos a acelerar o desenvolvimento com liberdade e respeito ao estado democrtico de direito. Observaremos a evoluo do pas que virou protagonista no cenrio mundial ao deixar de ser apenas um produtor agrcola para se transformar em potncia econmica. Pelo retrovisor planetrio veremos o amadurecimento das preocupaes ecolgicas se espalhando por todos os povos e tambm um ameaador aumento dos atos de terror. As pginas a seguir ajudam a compreender esses e outros fatos que marcaram os ltimos 40 anos, condio fundamental para que saibamos como contornar as curvas que viro pela frente.


2. POLTICA - A DEMOCRACIA VENCEU
A ex-presa poltica Dilma Rousseff entra para a histria como a primeira mulher a assumir a Presidncia e comprova que a democracia brasileira se consolidou
Marta Salomon

 TRANSIO - Em 1972, sentada prxima ao militante poltico Fernando Pimentel (de culos), hoje ministro do Desenvolvimento, Dilma Rousseff ( esq.) participava de interrogatrio em Juiz de Fora. Quarenta anos depois, era eleita presidenta da Repblica
 
Em abril de 1972, a militante poltica Dilma Rousseff j havia deixado para trs os nomes de Estela, Vanda, Luiza, Marina, Maria Lcia e Ana, que usara na clandestinidade. Dilma estava presa havia dois anos e trs meses, desde que foi capturada em So Paulo pela Operao Bandeirante, brao do Exrcito para combater os opositores da ditadura. Faltavam sete meses para a futura presidenta se livrar do crcere e da tortura. Mas Dilma ainda no sabia disso. Tampouco imaginava o que lhe aconteceria 40 anos depois, quando seria eleita presidenta da Repblica com 56 milhes de votos. H 40 anos, no tnhamos ideia do que viria. No pensvamos nisso. Queramos sair da cadeia e derrubar a ditadura, resume o ex-colega de militncia e amigo Fernando Pimentel, hoje ministro do Desenvolvimento.

PASSEIO PELA HISTRIA - Ao lado dos ex-presidentes eleitos aps a redemocratizao, Dilma instala a Comisso da Verdade
 
Pimentel aparece prximo a Dilma em um dos interrogatrios da Justia Militar de que a presidenta participou em Juiz de Fora, em abril de 1972. A cena, flagrada por um fotgrafo no identificado na 4 Regio Militar, foi localizada recentemente no arquivo histrico da cidade mineira. Dilma deixara crescer os cabelos, presos com um lao de fita na ocasio. Na foto, obtida com exclusividade por ISTO ( pg. 92), ela guarda os culos de aros grossos, largos e escuros no colo. Nem sequer havia completado 25 anos. A imagem plcida de Dilma Rousseff na foto no traduz o que foi a passagem por Juiz de Fora, onde respondia a um dos trs Inquritos Policiais Militares que a condenaram a penas que somaram seis anos e um ms de priso, por crimes contra a segurana nacional. Num desses inquritos, o auditor classificou Dilma de papisa da subverso, alm de uma das molas mestras e um dos crebros dos esquemas revolucionrios postos em prtica pelas esquerdas radicais, conta o jornalista Ricardo Amaral em A Vida Quer  Coragem, livro sobre a trajetria da presidenta. A pena total de priso foi revista pelo Superior Tribunal Militar, que liberou Dilma da priso em novembro de 1972. Em Juiz de Fora, ela respondia pela participao num plano de fuga de um ex-companheiro do Comando de Libertao Nacional (Colina).

CONSAGRAO - Eleita com 56 milhes de votos, Dilma Rousseff toma posse em janeiro de 2011
 
A trajetria da presidenta Dilma, nas ltimas quatro dcadas, se confunde com a luta pela consolidao da democracia no Pas. No final dos anos 70, sete anos depois da foto de Juiz de Fora em 1972, o Brasil concedia anistia aos presos polticos da ditadura. Cinco anos depois forjou nas ruas a ampla campanha nacional pelas Diretas, J, promulgou a Constituio de 1988, elegeu um presidente pelo voto direto em 1989, impeachou-o, sob denncias de corrupo, e em 11 anos guindou pela primeira vez ao Palcio do Planalto um metalrgico, eleito pelo voto popular. Um ano antes da eleio de Lula, em 2001, em depoimento ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais, uma ainda pouco conhecida Dilma Rousseff daria o primeiro de um dos raros testemunhos sobre a tortura a que foi submetida por resistir ao regime de exceo: O estresse  feroz, inimaginvel. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solido, disse ela. Esse depoimento s foi tornado pblico quatro meses atrs, em reportagem do jornal Estado de Minas. O depoimento foi dado meio a contragosto e faz parte de processo de indenizao a presos polticos promovido pelo governo mineiro. Na poca, Dilma Rousseff era secretria de Energia do Rio Grande do Sul, na gesto do petista Olvio Dutra. Ela se filiara ao PT havia pouco tempo. Eram tempos de crise do apago, mas o Rio Grande do Sul registrava aumento da oferta de energia. A partir de ento, Dilma passara a ser conhecida como a secretria durona do Olvio.

Admiradora da obra de Guimares Rosa, Dilma sabia, pelas falas do personagem Riobaldo, em Grande Serto, Veredas, que esta vida est cheia de ocultos caminhos. Ela ainda no imaginava, mas j reunia, ali, em 2001, as condies que a levariam, pouco tempo depois, ao ncleo do poder petista. Em junho daquele ano, o fsico Luiz Pinguelli Rosa convidara a economista a participar do grupo de debate do plano de governo do ento candidato ao Planalto, Luiz Incio Lula da Silva. Ela pediu que eu a apresentasse ao Lula, conta o diretor do instituto de pesquisa em engenharia da UFRJ (Coppe), que promoveu o encontro de Lula com sua futura ministra e candidata  sucesso. Acho que eles se encontrariam de outra maneira, foi uma coincidncia, no atribuo importncia especial a esse encontro, pondera Pinguelli. O ex-presidente Lula, por sua vez, no esqueceria esses dias, que definiram a escolha de Dilma para integrar a equipe de governo, pouco tempo depois. Aparece l uma companheira com um computadorzinho na mo. Comeamos a discutir e percebi que ela tinha um diferencial dos demais que estavam ali, porque ela vinha com a praticidade do exerccio da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. A eu fiquei pensando: acho que j encontrei a minha ministra aqui, relatou Lula anos depois.
 
Aos olhos de Carlos Arajo  companheiro durante 30 anos e uma das pessoas mais prximas de Dilma at hoje , chegar  Presidncia da Repblica no estava nos planos da jovem dos anos 70, embora reconhea que ela tenha se preparado para isso nos anos seguintes. Ela sempre teve paixo pela poltica.  sua vocao, diz Arajo. Ao deixarem a cadeia, Dilma e Arajo mantiveram a militncia poltica. Na fase final da ditadura, ajudaram a fundar o PDT de Leonel Brizola. Dilma retomou a graduao em economia e aprofundou o gosto de organizar ideias, uma de suas marcas. Em meados dos anos 80, foi a primeira mulher a assumir o comando das finanas de uma capital, ao ser nomeada secretria da Fazenda de Porto Alegre. Mas ela nunca havia disputado uma eleio at 2010. Venceu com quase 56 milhes de votos. Ela no comenta isso, mas  evidente que vai disputar a reeleio, aposta Carlos Arajo, que no nota grandes mudanas no jeito Dilma de ser: Essa fama de durona vem de longe.

TESTEMUNHO -  Carlos Arajo, ex-marido de Dilma, lembra que a vocao da presidenta pela poltica vem de longe
 
Quarenta anos e um ms depois do interrogatrio de Juiz de Fora, Dilma Rousseff escreveria outro captulo no processo da consolidao democrtica no Pas. Posou para os fotgrafos ao lado de Lula, Fernando Henrique Cardoso, Jos Sarney e Fernando Collor numa cena que reuniu todos os presidentes da Repblica desde o fim do regime militar, com exceo de Itamar Franco, j morto. O encontro marcou a instalao da Comisso da Verdade, que investiga violaes aos direitos humanos pelo Estado. No discurso, Dilma fez um resumo do que ela e o Pas viveram em quatro dcadas. Esse  o ponto culminante de um processo iniciado nas lutas do povo brasileiro pelas liberdades democrticas, pela anistia, pelas eleies diretas, pela Constituinte, pela estabilidade econmica, pelo crescimento com incluso social. Numa espcie de ajuste de contas com o passado, disse que a Comisso da Verdade no seria movida a revanchismo nem a dio. Construmos uma democracia slida, com reduo radical da desigualdade social e estabilidade econmica, no  pouca coisa, anota Fernando Pimentel. Passamos no teste, encerrou.
 
Fotos: Arquivo Fotgrfico Jornal Dirio Mercantil; Richard Drew/ap photo; Gustavo Miranda/Ag. O globo; Alan  Marques/Folhapress; Jefferson Bernardes/Preview.com


3. COMPORTAMENTO - COMO ANDOU O BRASIL
Mais velho, mais alfabetizado e menos religioso, o Pas tem caminhado em direo a padres de naes desenvolvidas. Com isso, surgem novos desafios 
Natlia Martino

INCLUSO SOCIAL - Avenida Paulista nos anos 1970 e atualmente: um dos smbolos da pujana do Brasil, que se tornou um Pas majoritariamente de classe mdia 

O Brasil de 2012 pouco lembra o de 1972. No auge dos anos de chumbo, democracia era uma palavra existente apenas nos sonhos da esquerda, a diminuta sociedade de consumo se contentava em comprar s produtos nacionais e o divrcio existia somente nos dicionrios. Nos ltimos anos, elegemos um socilogo, um metalrgico e uma ex-guerrilheira para a presidncia, os importados invadiram as prateleiras e o fim do casamento deixou de ser tabu. Nesse perodo, a populao tambm se tornou mais velha, mais alfabetizada e menos religiosa. O Pas evoluiu rumo a padres semelhantes ao de naes desenvolvidas, com menos desigualdade e uma classe mdia grande e pujante.

A maior mudana das ltimas dcadas ocorreu no perfil etrio nacional. ramos um Pas de jovens, agora caminhamos para ser um Pas de idosos. As crianas e adolescentes com idade inferior a 14 anos representavam cerca de 40% da populao em 1970 e hoje so 24%. A reduo de pessoas em idade escolar significa uma enorme estrutura de ensino e um bom quadro de professores para menos alunos. Facilita, por exemplo, a abertura de turnos integrais, afirma o demgrafo Frederico Luiz Barbosa de Melo, do Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Socioeconmicos (Dieese). Isso ajuda a explicar o substancial aumento da alfabetizao. Hoje, 91% dos brasileiros com mais de 10 anos sabem ler e escrever, contra 66% 40 anos atrs. Apesar de a qualidade do ensino pblico deixar a desejar, a simples existncia da estrutura escolar tem impacto positivo por vrios anos. Alm disso, como as famlias tm cada vez menos filhos, h mais recursos para investir na educao de cada criana.

O rpido envelhecimento populacional, porm,  um desafio. A expectativa de vida saltou de 53,4 para 73,4 anos em quatro dcadas. As pessoas com mais de 60 anos atualmente so 12% da populao e em 2050 representaro 30% do total. O efeito mais evidente dessa tendncia  o aumento da presso sobre a Previdncia Social, que precisa oferecer benefcios como aposentadoria a uma quantidade cada vez maior de pessoas enquanto diminuem os contribuintes em idade economicamente ativa. As solues podem ir do aumento das exigncias para receber os benefcios  diversificao das fontes para conseguir os recursos, explica o demgrafo Melo. O sistema de sade tambm sofrer impactos. O Brasil conseguiu combater as doenas infantis, mas agora a questo  oferecer tratamento s doenas da velhice, como males do corao, e isso  muito mais difcil e mais caro, diz ele .
 
A intensa urbanizao de reas remotas do Pas  outra marca das ltimas dcadas. Em termos gerais, a populao urbana saltou de 70% para 84% do total. Porm, em regies historicamente menos desenvolvidas no Norte e no Nordeste a transformao foi expressiva e rpida. O Acre, por exemplo, contava com menos de 30% de seus habitantes em cidades em 1970. Hoje a situao se inverteu e 73% dos acrianos vivem em ncleos urbanos.

Tambm houve uma acelerada alterao no perfil religioso nacional. O nmero de catlicos, que levou 100 anos para cair de 99% da populao, em 1872, para 92%, em 1970, sofreu uma queda brusca em apenas quatro dcadas. Segundo o Censo 2010 divulgado este ano, atualmente 64% das pessoas dizem seguir a Igreja de Roma no Pas. Se essa tendncia for mantida, em 2030 os catlicos sero menos da metade dos brasileiros, diz Jos Eustquio Diniz Alves, professor titular do mestrado em estudos populacionais e pesquisas sociais da Escola Nacional de Cincias Estatsticas (Ence/IBGE). Esse rebanho, em sua maioria, deixou de ter religio ou se tornou evanglico. As igrejas evanglicas criaram estruturas para atender as periferias das grandes cidades e ainda conseguiram customizar a f, criando igrejas para homossexuais ou para surfistas, por exemplo, explica ele.
 
De todas as transformaes, porm, nada tem sido mais comemorado do que a ascenso econmica do brasileiro. Nos anos que se seguiram a 1970, as pessoas ainda estavam chegando do campo, saindo de lugares sem energia e sem gua para as cidades. Eram ajudados por comunidades da Igreja e outras associaes. Nos anos 1980, houve uma recesso to forte que essa poca ficou conhecida como a dcada perdida. Apenas nos anos 1990, quando a inflao foi domada pelo Plano Real, o Brasil reencontrou o eixo para o crescimento da economia. Os ltimos dez anos foram marcados pela incluso social. Mais de 30 milhes de pessoas subiram para as classes A, B e C  e, desse contingente, 20 milhes saram da pobreza. Agora, 53% da populao so de classe mdia. O Brasil de 2012  mais democrtico, mais justo e mais rico.  

Fotos: arquivo Folhapress; divulgao
 Fotos: Arquivo/Ag. O Globo; Masao Goto Filho/ag. Isto 


4. MEIO AMBIENTE - BARULHO EM NOME DO PLANETA
Preservao e crescimento pareciam incompatveis nas primeiras conferncias ecolgicas; hoje, a economia verde virou modelo de desenvolvimento
Juliana Tiraboschi

PALCO - A pauta das conferncias ecolgicas no se restringe ao ambiente. Em Estocolmo ( esq.), ativistas protestam contra a Guerra do Vietn; no Rio, marcham pelos direitos da mulher
 
Hoje qualquer criana sabe o que significa sustentabilidade, a palavra de ordem do sculo XXI. Mas, h 40 anos, a expresso nem fazia parte do vocabulrio dos cientistas, polticos e ativistas que participavam de encontros ambientais. 

Esse conceito comeou a ser rascunhado com a Conferncia de Estocolmo, realizada na Sucia em 1972. Foi o primeiro encontro mundial organizado especialmente para discutir preocupaes ecolgicas. A reunio resultou em um documento que colocou o meio ambiente na balana do lado oposto ao modelo tradicional de desenvolvimento econmico. O Brasil adotou uma postura ctica diante da Declarao de Estocolmo. O pas vivia um momento de desenvolvimento acelerado e defendia seu direito de poluir tanto quanto os pases ricos j haviam feito. Porm, ao final do evento, a delegao do Pas no s assinou o documento como, ao retornar, um de seus membros, Henrique Brando Cavalcanti, secretrio-geral do Ministrio do Interior, promoveu a elaborao do decreto que instituiu a Secretaria Especial do Meio Ambiente.

PRESENA - Um dos criadores da Secretaria Especial do Meio Ambiente, Henrique Brando Cavalcanti foi  Conferncia de Estocolmo em 1972 e  Rio+20
 
A partir da, o debate ambiental comeou a ganhar corpo. Em 1983, a ONU criou a Comisso Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, tambm conhecida como Comisso Brundtland. Comandado pela primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, o grupo elaborou um relatrio, conhecido como Nosso Futuro Comum, defendendo a integrao entre preservao do meio ambiente e desenvolvimento econmico. A maior preocupao da poca era se os recursos naturais dariam conta de acompanhar o crescimento demogrfico no planeta. Chegou-se  ideia de que desenvolvimento sustentvel  aquele que no prejudica a gerao atual nem as futuras, diz Paulo Nogueira-Neto, professor emrito do Instituto de Biocincias da Universidade de So Paulo e integrante da delegao. 

O Relatrio Brundtland serviu de base para os debates promovidos pela Eco 92, no Rio de Janeiro. Alm das delegaes oficiais, a profuso de ONGs e empresas que participaram do evento mostrou que era preciso ampliar o debate para alm dos gabinetes governamentais. Passados 20 anos da Eco-92, a Rio+20 veio para mudar o foco e debater os rumos de um novo modelo de desenvolvimento, a economia verde. O encontro no resultou em decises concretas, apenas em um documento vago no qual os pases prometem combater a pobreza e controlar a degradao ambiental.

A dificuldade maior  internalizar os custos ambientais das aes humanas.  preciso desenvolver regras para as empresas fazerem sua contabilidade considerando o seu passivo ambiental, ou seja, o prejuzo que elas causam, diz Luiz Gylvan Meira Filho, um dos negociadores do Protocolo de Kyoto e hoje pesquisador-visitante do Instituto de Estudos Avanados da USP e do Instituto Tecnolgico Vale de Desenvolvimento Sustentvel. E isso  um trabalho para mais alguns anos de encontros, debates e discusses. 
 
Fotos: Scanpix/Other Images; Sergio Moraes/reuters; Adriano Machado


5. EDITORA TRS 40 ANOS
 Domingo Alzugaray - Fundador, editor e diretor responsvel da Editora Trs
 
A histria das duas fotos acima comeou assim: Domingo Alzugaray estava  procura de uma mesa de reunies para colocar na sala da presidncia da Editora Trs, mas no havia nada no mercado que atendesse a sua expectativa. Precisava ser um mvel nico, de grandes dimenses e capaz de receber bem qualquer visitante  um lder da Repblica, um empresrio, uma personalidade. Alzugaray foi procurar o objeto em Embu das Artes, cidade na Grande So Paulo famosa pelo comrcio de mveis artesanais, e o encontrou. Vi aquela imensa tora encostada em um canto e logo a vislumbrei na editora, diz. O dono da loja falou que faria trs mesas com a tbua, mas eu quis comprar a pea inteira. Complicado foi instal-la na sede da Trs, um edifcio industrial do sculo XIX erguido na Lapa de Baixo, zona oeste de So Paulo. Alguns vitrais da fachada tiveram que ser retirados, parte de uma parede foi quebrada e s com a ajuda de um guindaste ela chegou ao seu destino. De madeira de lei, a mesa pesa meia tonelada, tem cinco metros de comprimento por um de largura e possui bordas irregulares que lhe conferem um aspecto singular, como se a natureza a tivesse esculpido para passar seus dias ali, naquela sala da Editora Trs, testemunhando as transformaes vividas pelos brasileiros, na palavra de seus protagonistas.
 
Estar sentado  mesa  um timo lugar para se conhecer melhor o Pas. O Brasil passou por ela, diz Alzugaray. Dilma Rousseff, Luiz Incio Lula da Silva, Jos Sarney, Fernando Collor, Ulysses Guimares, Jos Alencar, Leonel Brizola, Joseph Safra, Antnio Ermrio de Moraes, Lzaro Brando, para citar apenas alguns exemplos marcantes, trocaram ideias com jornalistas da editora  e com o prprio Alzugaray  diante do mvel comprado no fim dos anos 1970 por ele. A mesa virou um smbolo da empresa, diz o argentino naturalizado brasileiro que chegou ao Pas na dcada de 1950, depois de uma florescente carreira como ator de fotonovelas. Sentado  sua cabeceira, Alzugaray, com as revistas que criou na Editora Trs, ajudou a escrever, nas ltimas quatro dcadas, algumas das pginas mais importantes do mercado editorial e da histria do Brasil. Sempre tivemos um compromisso com a transformao do Brasil em um pas desenvolvido e justo. E nunca deixamos de nos posicionar nesse sentido, afirma Caco Alzugaray, filho do fundador e atual presidente-executivo da empresa.

Caco Alzugaray (primeiro  dir. na foto acima) recebe Dilma Rousseff, e Domingo Alzugaray (na cabeceira, ao fundo, na foto abaixo) recepciona Lula: o poder passou e passa pela grande mesa da Trs

Os 40 anos da Trs comearam em 2 fevereiro de 1972, quando Domingo Alzugaray, vindo de uma profcua carreira na Editora Abril, e os parceiros Luiz Carta e Fabrizio Fasano criaram uma empresa que, pouco tempo depois, j deixaria profundas marcas no mercado de revistas brasileiro. O marco zero da editora foi a coleo de fascculos culinrios MENU, lanada apenas dois meses depois da fundao. A impressionante agilidade  ningum, naquela poca e provavelmente at hoje, se arriscava na praa sem antes preparar o terreno, em projetos que, para ir adiante, levavam meses, s vezes anos  se tornaria a marca registrada da cultura empresarial da Trs. Hoje, a conta de exemplares produzidos pela editora, somando-se fascculos e revistas mensais e semanais, chega a quase seis bilhes de unidades (leia quadro).
 
Em setembro de 1972, apenas seis meses depois que os trs scios haviam alugado um pequeno escritrio no centro de So Paulo, nascia a PLANETA, ttulo que persiste at hoje. Inspirada na Plante, criada por dois intelecutais franceses, ela seria comandada pelo jornalista e escritor Igncio de Loyola Brando. Foi a que outra bela tradio comeou: em sua histria, a Trs contratou e teve entre seus colaboradores alguns dos mais brilhantes crebros do Pas. Glauber Rocha, Jorge Amado, Rubem Braga, Millr Fernandes, Carlos Drummond de Andrade, Joo Ubaldo Ribeiro e Paulo Francis so alguns dos nomes que ajudaram a construir as pginas publicadas pela Editora Trs.

"Sempre tivemos um compromisso com a transformao do Brasil em um pas desenvolvido e justo" Caco Alzugaray, presidente-executivo da Editora Trs"
 
Em 1974, Alzugaray teve uma ideia. Mesmo diante dos limites impostos pela ditadura, por que no criar uma revista provocadora, com fotos de mulheres lindas e despidas e reportagens do tipo que prende o leitor do incio ao fim? Surgiu assim, em agosto daquele ano, a STATUS, a primeira revista masculina do Brasil. A STATUS no tinha s nudez, mas inteligncia da primeira  ltima pgina, diz o jornalista Gilberto Mansur, diretor de redao da revista durante quase uma dcada. Isso se deve principalmente ao Domingo Alzugaray. A STATUS trazia imagens insinuantes de cones femininos da poca como Sandra Brea, Sonia Braga e Xuxa, mas ia muito alm. Mansur lembra que a primeira publicao brasileira a trazer textos do argentino Julio Cortzar, um dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos, foi a STATUS, mas isso no tem nada a ver com o diretor de redao, que, alis, havia sido professor de literatura. Ningum no Brasil sabia quem era o Cortzar, s o Domingo. Ele me pediu para ir atrs dos direitos de publicao e consegui fazer com que o Cortzar se tornasse conhecido no Pas. Mansur lembra de outro trao da personalidade de Alzugaray: o charme irresistvel. Por um perodo, deixei a STATUS para trabalhar com Tancredo Neves em Minas Gerais, diz o jornalista. Pouco tempo depois, o Domingo, com aquela conversa sedutora dele, me convenceu a deixar o Tancredo para voltar para a Editora Trs.

"A revista ISTO foi criada em uma poca dura, de pouca liberdade para a imprensa, mas entramos sem medo" Domingo Alzugaray, fundador da Editora Trs
 
Capitalizado pelo sucesso comercial da STATUS, o editor Domingo decidiu apostar mais alto. Era hora de criar uma revista de informaes abrangentes. Surgiu assim a ISTO, primeiro em uma verso mensal, mas que logo se transformaria na primeira semanal da editora, com direo do jornalista Mino Carta, fundador da Veja. Era uma poca dura, de pouca liberdade para a imprensa, mas entramos sem medo, diz Alzugaray. Reportagens que denunciavam as mazelas nacionais  corrupo, misria, violncia  se tornaram frequentes nas pginas da revista, que logo comearia a deixar sua marca no mercado. Era delicioso, com aquela equipe mnima, dar um calor na concorrncia, afirma o jornalista Nirlando Beiro, integrante dos primeiros times que fizeram a revista e hoje diretor de projeto da STATUS. O regime militar ia relutantemente se abrindo e ISTO aproveitava, com suor e talento, cada brecha. Beiro lembra que as reunies de pauta pareciam comcios, de tanta vibrao poltica. Participavam das reunies convidados como Fernando Henrique Cardoso.
 
Foi nessa poca que ISTO descobriu, e ps na capa, um irrequieto lder metalrgico do ABC, apelidado de Lula. Foi a primeira das grandes contribuies da Editora Trs para cristalizar a democracia no Pas. Com a ISTO, milhes de leitores descobriram que o verdadeiro jornalismo nasce da contradio e do debate, e no do pensamento nico e estratificado. Esse esprito moveu e move a revista em toda a sua histria. Foi graas a uma denncia da publicao semanal da Trs que Fernando Collor, primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura militar, comeou a contar seus dias no cargo mximo do Pas. A edio de 8 de julho de 1992 trazia uma reportagem de capa, intitulada Eriberto, um brasileiro, em que o motorista revelava, em reportagem exclusiva, que PC Farias, ex-caixa de campanha de Collor, bancava as despesas da famlia do presidente. Depois do depoimento de Eriberto  CPI, Collor caiu. Durante todo o processo, a ISTO deu um show de coragem, independncia e competncia, diz Joo Santana,  poca diretor da sucursal da revista em Braslia e que mais tarde se tornou marqueteiro das campanhas presidenciais de Lula e Dilma.

A redao, em um prdio histrico em So Paulo: em 40 anos, foram publicados quase seis bilhes de exemplares de revistas e fascculos

A histria de ISTO no est ligada apenas  vida poltica. Com vocao inovadora, a revista foi a primeira do Pas a abrir espao para assuntos de interesse geral. Ampliamos as reas de comportamento e cultura e logo fomos imitados pelos concorrentes, diz o jornalista To Gomes Pinto, que dirigiu a revista entre 1993 e 1996. Quem conhece de perto Domingo Alzugaray sabe que o empresrio sempre instigou os jornalistas. Ele nos convidava a ousar, diz o hoje escritor Mrio Prata, editor da revista Careta, uma publicao bem-humorada de cultura que durou pouco, mas que, com colaboradores do porte de Luis Fernando Verissimo, Plnio Marcos e Angeli, iluminou o mercado editorial brasileiro. 

De todos os grandes bares da imprensa brasileira, Domingo Alzugaray  certamente o mais acessvel. Afeito a uma boa conversa, costumava chamar jornalistas para trocar impresses em sua sala, ao som de algum belo tango argentino. Certamente em alguns desses encontros surgiram projetos que mais tarde se revelariam bem-sucedidos. Em sua vida empreendedora, Alzugaray colocou no mercado dezenas  ou centenas, considerando os fascculos  de ttulos. Foi ele quem teve a ousadia de lanar, em 1997, uma revista semanal de economia, negcios e finanas, a ISTO DINHEIRO, quando o senso comum dizia que no havia espao, no Brasil, para um veculo desse tipo. O projeto da DINHEIRO, desenvolvido pelo jornalista Carlos Jos Marques, atualmente diretor editorial da Trs, rapidamente conquistou empresrios e leitores interessados em receber informaes da rea sem o velho rano do jornalismo econmico. Foi sucesso imediato. Numa tarde o Domingo me chamou e disse: Vamos fazer a DINHEIRO. Dois meses depois, a revista estava na banca, diz Marques.

A DINHEIRO cresceu, consolidou-se como marca e acabaria fazendo histria tambm com seus filhotes. No ano 2000, em uma festa no Hotel Transamrica, em So Paulo, organizada para comemorar o lanamento de uma edio especial chamada de Cem Maiores Lucros, Alzugaray teria entre seus convidados o presidente Fernando Henrique Cardoso. Horas antes do evento, um assessor de FHC ligou de Braslia perguntando se ele poderia levar um convidado  o presidente argentino Fernando de la Ra. Vieram os dois, Fernando Henrique e De la Ra, e a festa da Trs se tornaria manchete nos jornais do dia seguinte.
 
Tambm foi histrico o encontro, em dezembro de 2002, entre FHC e Lula, que acabara de ser eleito presidente da Repblica. Em uma verdadeira lio de democracia, ambos foram recepcionados por Alzugaray na festa do prmio Brasileiros do Ano, em So Paulo, no que se tornaria o primeiro encontro pblico entre eles pouco antes da transmisso, para Lula, do cargo de presidente da Repblica. A marca da Editora Trs e de sua trajetria  o jornalismo independente, fiscalizador do poder, de qualidade e responsvel, praticado sem ressalvas ao longo dos 40 anos por obra e viso do Domingo e do Caco Alzugaray, diz Carlos Jos Marques, diretor editorial da Trs.

Filho de Domingo, Caco Alzugaray comeou a trabalhar na Editora Trs em 1988. Primeiro foi assistente de redao na revista Hippus e depois passou por todos os departamentos da empresa. Foi redator coordenador de promoes, coordenador de marketing, gerente de marketing, gerente de produto, diretor de marketing, diretor executivo de marketing e diretor executivo antes de assumir a presidncia, em maio de 2007. Como o pai, Caco Alzugaray exerce o controle da empresa com gentileza e elegncia, envolvendo-se diretamente e de forma diria na atividade editorial. Nesses anos todos, desenvolvi a convico de que uma empresa de comunicao s tem um patro: o leitor. Caco j deixou algumas marcas na Trs. Em 2008, quando o mundo mergulhava numa crise financeira e muitos duvidavam da capacidade do Pas para atravess-la, ele teve a ideia de fazer uma capa, em ISTO, com a mensagem Acredite no Brasil. Foi um marco institucional. Quem, como ns, confiou que era possvel, saiu mais forte dessa fase. A mesma e histrica mesa de madeira de lei que viu seu pai, Domingo Alzugaray, receber os brasileiros mais ilustres, agora assiste a Caco debater o Pas com personalidades da vida poltica e empresarial e de diversos setores da sociedade. Aquela mesa  realmente um lugar privilegiado de se ver o mundo.


6. ESPORTE - A DESCOBERTA DA VELOCIDADE
Primeiro brasileiro a vencer um Mundial de F-1, Fittipaldi abriu caminho a pilotos como Piquet e Senna e agora far campanha para um trnsito mais seguro 
Rodrigo Cardoso 

TRAJETRIA - A conquista do mundial de Emerson Fittipaldi de 40 anos atrs marcou o incio de uma sucesso de ttulos conquistados por brasileiros. Hoje, ele pilota uma empresa de marketing esportivo
 
Emerson Fittipaldi costuma repetir que o homem, como a bicicleta, jamais deve parar se no quiser cair. Esse paulista, que h exatos 40 anos inaugurou a lista dos brasileiros campees mundiais de Frmula 1, gosta de estar na ativa no automobilismo, nem que seja dormindo. Segundo ele, 90% de seus sonhos so sobre carros de corrida. Foi assim na noite anterior  entrevista  ISTO, diretamente de Lisboa, onde o ex-piloto foi homenageado pelo ttulo mundial conquistado em 1972. Eu corria de off road numa pista de terra, terreno sobre o qual ainda no competi, conta. Fittipaldi abriu caminho nas pistas para outros pilotos, como Nelson Piquet e Ayrton Senna, ambos campees mundiais, e transformou o automobilismo em uma paixo nacional. Hoje, aos 65 anos, viaja pelo mundo acompanhando as provas de F-1 e tem uma empresa de marketing esportivo.
 
O inquieto Fittipaldi  s em dar vida a seus sonhos. Foi assim nos anos 1960, quando decidiu correr na Inglaterra. Seu pai no tinha condies de patrocin-lo, e ele passou a se autopatrocinar quando seu irmo trouxe da Europa um volante de F-1 de alumnio revestido de borracha e couro. Vi aquilo e achei bacana. Comprei alumnio, borracha e couro. E fui ao sapateiro, que me ensinou a costurar, conta. Fiz um volante sozinho e o coloquei no carro da minha me. O pessoal gostou, fiz dois, trs e, quando vi, eu tinha uma fabricazinha de volantes com 15 anos. E assim o dinheiro foi surgindo.

Emmo, um dos apelidos de Fittipaldi, estreou no automobilismo europeu, em 1969. Vivia em Londres e ainda realizava polimento de cabeote de carros de passeio na oficina de um mecnico que, em contrapartida, preparava o motor de seu carro de corrida, um Frmula Ford pelo qual pagou R$ 36 mil graas  venda de trs automveis. Eu morava no quarto de uma penso estilo bed and breakfast. Pagava 110 libras (R$ 360) por semana, diz. Nada foi fcil para mim. Hoje, o automobilismo  mais patrocnio e menos talento.  ingrato isso. Trs anos depois de desembarcar no bero da principal categoria do automobilismo mundial, ele se tornava o mais jovem campeo da histria da F-1, aos 25 anos, um recorde que durou mais de 30 anos e foi superado pelo espanhol Fernando Alonso em 2005. 

Aquele ttulo foi o momento de maior satisfao pessoal. Eu falava com o carro, a Lotus John Player Special, e ele conversava comigo. Parecamos um corpo s, lembra-se. Jornalista especializado em automobilismo, Reginaldo Leme recorda o que Nelson Piquet, tricampeo da F-1, certa vez lhe disse sobre o pioneirismo de Fittipaldi: No tinha outra pessoa mais adequada para ser o primeiro a triunfar na F-1 do que o Emerson. Emmo se tornou realidade em uma poca em que a F-1 era um dos esportes que mais matava atletas no mundo. Enquanto competi, perdi 35 colegas em acidentes, frisa. No incio dos anos 1970, os blidos eram como uma bomba-relgio: uma batida mais forte e o tanque de gasolina literalmente explodia. Atualmente, so uma espcie de tanque de guerra, tamanha  a proteo que conferem aos pilotos.

No h mortes em grandes prmios desde o acidente fatal de Senna, em 1994. Por outro lado, o nmero de acidentes  muito maior do que na poca do brasileiro. Isso ocorre porque a diminuio drstica de falecimentos aps uma coliso tem conferido maior coragem aos competidores. Na minha poca, havia mais companheirismo entre os pilotos porque sabamos do risco de morrer, diz. Transferir a evoluo da segurana da F-1 para ruas e avenidas do Brasil  o sonho atual de Fittipaldi, que se aposentou das pistas em 1996. Ele ser o porta-voz de uma campanha de segurana de trnsito que o governo federal ir lanar ainda este ano. A meta  reduzir o nmero de acidentes fatais pela metade at 2020  no ano passado, morreram 48 mil pessoas nas ruas e estradas do Pas. 

Emmo ainda  conselheiro do neto Pietro, 16 anos, que corre em uma categoria de acesso da Nascar, nos Estados Unidos, pas onde o brasileiro fez carreira de sucesso na Frmula Indy, nos anos 1980 e 1990, e tambm pavimentou o caminho de outros brasileiros como Helio Castro Neves e Tony Kanaan. Faltam no Brasil categorias de acesso, desde o kart, de baixo custo, para dar chances iguais a muito mais jovens pilotos, opina Fittipaldi, que foi campeo da Indy, em 1989, e venceu duas vezes a tradicional 500 milhas de Indianpolis. Quando era bicampeo mundial de F-1, Fittipaldi fez a sua parte em prol da evoluo do automobilismo nacional ao criar, junto com o irmo, a escuderia Copersucar, que competiu na categoria entre 1975 e 1980. Sua ideia era proporcionar uma plataforma na F1 para pilotos brasileiros. O legado da Copersucar foi o fato de mostrar que o brasileiro tem capacidade, no pode se achar inferior e deve correr atrs de seus sonhos. Exatamente como faz Fittipaldi, at quando est dormindo.  
 
Fotos: David Ashdown/Keystone/Getty Images; Marco Ankosqui; ANDRE LESSA/AE
 Fotos: divulgao


7. ECONOMIA - O GENERAL E O METALRGICO
O crescimento a qualquer custo do perodo militar foi substitudo pela estabilidade monetria e pela reduo da desigualdade entre os brasileiros
Amauri Segalla

POLIVALENTE - Delfim com o general Mdici, um dos presidentes do regime militar, e com Lula: em quatro dcadas, o ministro do regime de exceo se tornaria interlocutor frequente do lder operrio (acima, um encontro dos dois em 2010)
 
Se fosse preciso eleger um nico protagonista para a trajetria econmica do Brasil nas ltimas quatro dcadas, este personagem poderia ser o paulista Antnio Delfim Netto. Desde 1972, poucos brasileiros foram to influentes nos caminhos que o Pas seguiria  para o bem ou para o mal. Tambm so raros os que trocaram de lado de forma to contundente e que conseguiram sair ilesos dessa transfigurao. As duas fotos que esto nas pginas anteriores simbolizam a guinada na vida de Delfim, reviravolta essa que, sob diversos aspectos,  o retrato acabado do prprio Brasil nos ltimos 40 anos. Na primeira imagem, o economista aparece ao lado do general Emlio Garrastazu Mdici, um dos presidentes do regime militar. Em 1972, Delfim era o ministro da Fazenda de Mdici e o principal condutor da poltica econmica que levaria o Brasil ao chamado milagre do desenvolvimento. Na segunda foto, de volta ao tempo presente, Delfim divide a cena com o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, um ex-metalrgico que, durante anos, encarnou as esperanas da esquerda nacional e era observado com desconfiana pelos homens da ditadura. Suprema ironia, o ministro da Fazenda do regime de exceo se tornou mais tarde interlocutor frequente de Lula, que admitiu publicamente consult-lo para debater assuntos econmicos. Mudou Delfim ou mudou o Brasil? A minha convico sempre foi uma s: com o tempo, at a esquerda aprende, afirma Delfim, com a mesma lngua afiada de sempre.

MUDANA - "Hoje considero um erro achar que o Estado  onisciente"
 
Mudaram os dois. H quatro dcadas, o Brasil assistiu ao maior crescimento de sua histria (de impressionantes 10% ao ano), apoiado no estmulo da indstria nacional e na forte atuao do Estado como ativador da economia. Por trs dessa operao, estava Delfim Netto  que, lembre-se, votou, como ministro, a favor do nefasto Ato Institucional Nmero 5, em 1968. No existiu milagre, porque milagre  efeito sem causa, diz Delfim. O desenvolvimento foi produto do trabalho dos brasileiros. O preo do crescimento a qualquer custo, porm, foi o descontrole inflacionrio que, associado s crises do petrleo em meados e fins da dcada de 70, levou o Pas para o colapso que viria mais tarde. Sem dinheiro, o Brasil endividou-se a nveis desesperadores. O milagre econmico, portanto, desencadeou o perodo de exploso do PIB nacional, mas no longo prazo seus efeitos seriam prejudiciais para o Pas. Sentado placidamente em seu escritrio em um bairro nobre de So Paulo, Delfim diz que no se arrepende de nada. Naquele momento, as decises que fizeram o Pas crescer eram as melhores para o Brasil, afirma. Suas convices no mudaram nem um pouco? Delfim responde do seu jeito. Hoje considero um erro achar que o Estado  onisciente.

ECOS DO PASSADO - Delfim em reunio para discutir os rumos da economia: do milagre do crescimento para a hiperinflao
 
O ex-ministro foi testemunha de grandes reviravoltas na economia brasileira. Depois da ditadura, veio a redemocratizao e, ao mesmo tempo, o terror da hiperinflao. Do ponto de vista econmico, um dos grandes marcos desse perodo foi o processo de abertura desencadeado pelo ex-presidente Fernando Collor. Foi uma abertura atabalhoada, confusa, mas que produziu um choque importante, diz Delfim. Antes da abertura, os brasileiros praticamente no tinham acesso a produtos fabricados no Exterior e o resultado era uma indstria nacional acomodada, incapaz de produzir bens de qualidade. Collor,  sua maneira, obrigou o setor fabril a se atualizar para conseguir competir com as empresas internacionais, que comearam a enxergar no Pas oportunidades de negcios. O caso Collor tambm  marcante do ponto de vista institucional, diz Delfim. Que pas afasta um presidente por corrupo e, anos depois, oferece a essa mesma pessoa a oportunidade de voltar, na forma de senador? S o Brasil.

BOM HUMOR - Delfim opera Lula em pardia ao quadro "Lio de Anatomia", de Rembrandt: desenho est no escritrio do economista
 
A histria econmica dos ltimos 40 anos  marcada inegavelmente por uma srie de equvocos. Mas eles, em certo sentido, foram fundamentais para o amadurecimento do Pas. Se hoje a inflao se mantm sob controle, isso  resultado, tambm, das lies aprendidas no passado recente. O Plano Cruzado e o Plano Collor fracassaram na tentativa de domar a insana alta dos preos, mas eles ensinaram aos economistas que planos mirabolantes no funcionam e que, sem instituies slidas, no se faz mudanas profundas em um Pas. A Constituio de 1988 foi a base que ajudou o Brasil a se tornar um Pas melhor, diz Delfim. Ela definiu a sociedade que ns queremos, que vem a ser uma sociedade em que todos, inclusive o governo, obedecem as mesmas leis, uma sociedade democrtica que oferece as mesmas oportunidades para todos os cidados. Eis a uma mudana profunda de ponto de vista. Delfim trabalhou para uma ditadura, que  tudo menos democrtica.

Foram as instituies slidas  um Banco Central independente, por exemplo  que permitiram que o Plano Real do governo Fernando Henrique Cardoso fosse bem-sucedido. O Plano Real  uma obra que honra a inteligncia dos economistas brasileiros, diz Delfim. Com ele, a inflao se manteve sob controle e o Pas teve, enfim, uma moeda forte. A estabilidade monetria atraiu investimentos, gerou empregos e construiu um ambiente de negcios favorvel para uma gerao inteira de empreendedores. Para Delfim, to importante quanto o Plano Real foi a diminuio da desigualdade durante o governo Lula. Nesse ponto, est outra ironia na trajetria de Delfim  e do prprio Brasil. O milagre econmico da dcada de 70, conduzido por Delfim, produziu riqueza, mas no diminuiu o abismo entre ricos e pobres (deve-se fazer o bolo crescer para depois distribu-lo, dizia-se  poca). Foi preciso que um ex-metalrgico criasse as condies necessrias para um forte processo de mobilidade social, que est contribuindo hoje para o surgimento de uma nova classe mdia. Em 40 anos, Delfim e o Brasil mudaram. Para melhor.
 
Fotos: Reproduo/lbum Famlia; Divulgao; Rafael Hupsel/Ag. Isto; Reproduo/lbum Famlia; Divulgao; Rafael Hupsel/Ag. Isto; Plinio Salgado/AE; Rafael Hupsel/Ag . Isto


8. INTERNACIONAL - DE NIXON A OBAMA
Rombo nas contas pblicas que ameaa a reeleio de Barack Obama comeou a tomar forma durante a gesto do controverso republicano Richard Nixon
Laura Daudn

CONTRASTE - Quatro dcadas atrs, o conservador Richard Nixon ( esq.) tinha a confiana dos americanos. Hoje o presidente Barack Obama ( dir.) vem brigando por cada ponto nas pesquisas
 
Foi uma reeleio fcil para Richard Nixon. Contra ele, naquele ano de 1972, estava George McGovern, um pacifista liberal que acabou perdendo por uma diferena de 23,3%  a quarta maior na histria das eleies americanas. Foi com esse amplo apoio que Nixon assumiu seu segundo mandato. Ningum poderia imaginar que, trs anos depois, teria de abandon-lo em desgraa por ser apontado como lder do escandaloso roubo de arquivos da sede do Partido Democrata em Washington  a sede de Watergate. Ningum poderia suspeitar, tampouco, que seu mandato inauguraria uma era de profundas transformaes polticas e sociais que culminariam, em 2008, na eleio do primeiro presidente negro da histria do pas.
 
Em 1972, no auge dos movimentos por direitos civis que buscavam o fim do racismo que dividia a sociedade americana e em meio a revoltas generalizadas que pediam o fim da guerra do Vietn, Nixon teve de assumir uma posio de conciliador, ainda que isso ferisse a extrema direita republicana. Bancou, assim, a desastrosa retirada de tropas americanas da Indochina e conseguiu sustentar a imagem de conciliador. Ao lado de Henri Kissinger, seu secretrio de Estado e confidente, usou de todas as suas armas para manter a frgil balana de poder que o pas dividia com a extinta Unio Sovitica. No por outro motivo, a guerra foi uma constante desde sua nefasta renncia  foram dez intervenes militares diretas.

A consequncia dessa poltica intervencionista, que se intensificou na dcada de 1980 com uma sucesso de governos republicanos,  o rombo nas contas pblicas. Um desequilbrio que hoje ameaa a posio de superpotncia ocupada pelos Estados Unidos desde a queda do muro de Berlim em 1989 e pe em risco a prpria reeleio do democrata Barack Obama. Ele tambm tem o desafio de liquidar as frentes abertas no Iraque e no Afeganisto por seu antecessor George Bush e recuperar a economia. A maioria dos poderes hegemnicos ruiu por causa de uma combinao letal de dvida e guerra, afirma o professor Jos Antonio Sanahuja, da Universidade Complutense de Madri. E a economia americana se encontra  beira desse precipcio fiscal. 
 
Fotos: Everett Collection/Glow Images; montagem sobre foto de Mandel NGAN/afp photo e Pete Souza/ Official White House Photo; Nick Ut/AP Photo; Shamil Zhumatov/Reuters


9. TERRORISMO - SOB O DOMNIO DO MEDO
Durante a Olimpada de Munique, a violncia e a intolerncia mostraram a sua face. Quatro dcadas depois, o terrorismo continua a atemorizar o mundo
Pedro Marcondes de Moura

 SEM FIM - O militante mascarado na Vila Olmpica de Munique ( esq.) marcaria o incio de uma onda de terror, que ainda abala o mundo, promovendo aes como a do ataque  embaixada dos EUA em Bengazi, na Lbia
 
Ao caminhar pela Vila Olmpica de Munique, Paulo Roberto Falco, aos 18 anos, ento volante da Seleo Brasileira de Fubetol, esforava-se para no acreditar no que via. Era inconcebvel a ideia de que aquele espao de comunho mundial e nobres ideais tivesse sido conspurcado por dio, intransigncia e horror. Ali era um lugar onde atletas de mais de uma centena de nacionalidades compartilhavam o refeitrio e sentiam-se prximos de dolos como o nadador americano Mark Spitz (que levaria sete medalhas de ouro naquela Olimpada).  noite, na boate, esses atletas, despreocupados, desfilavam diferentes traos de suas culturas em coreografias caprichadas. Mas a pacfica vila, naquela tera-feira 5 de setembro de 1972, tinha virado palco de um atentado terrorista. Para ns, era um ambiente inviolvel. Ningum entrava sem credenciais. Foi impensvel acontecer o que aconteceu, comenta 40 anos depois, um Falco ainda incrdulo. 
 
Durante a madrugada daquele dia, oito integrantes do grupo terrorista palestino Setembro Negro escalaram a cerca de um dos portes da Vila Olmpica. Vestidos como esportistas e, com mochilas recheadas de armamentos, invadiram o alojamento da delegao israelense. Mataram dois atletas e fizeram outros nove refns. A foto de um encapuzado na sacada dos alojamentos assombrou o mundo. Os terroristas exigiram a libertao de cerca de 200 rabes presos em Israel, o que foi negado pelos israelenses. Naquele dia, a Vila Olmpica parecia um deserto, lembra Falco. Uma desastrada operao de resgate acabou resultando na morte de todos os refns, um policial e cinco homens do Setembro Negro. Outros trs terroristas foram presos, mas libertados mais tarde como moeda de troca pelos refns e sequestradores de um avio da Lufthansa em Beirute. Israel vingou seus mortos lanando uma contraofensiva chamada Fria de Deus, que caou todos os que participaram da ao terrorista ou que colaboraram com tal acontecimento.

"Para ns, era um ambiente inviolvel" - Paulo Roberto Falco, ex-jogador da Seleo
 
A questo palestina, que foi o pano de fundo do ataque em Munique, manteve-se pelas dcadas seguintes, at os dias de hoje, como uma ferida aberta e incurvel na poltica internacional. E, assim, colaborou decisivamente para a grande onda de terrorismo que viria engolfar o planeta. Uma guerra de inimigos invisveis, dispostos a sacrificar populaes civis para promover o caos. Investidas sangrentas que no respeitam barreiras morais ou convenes internacionais. O terror afrontou o centro da Europa, ameaou pases como Alemanha e Itlia, convulsionou naes rabes e espalhou-se por todos os cantos. Dados do Global Terrorism Database (GTD), da universidade americana de Maryland, revelam a ascenso nas ltimas quatro dcadas desse tipo de ataque. Foram realizadas mais de 104 mil aes do gnero em diferentes pases. So 47 mil atentados, 14 mil assassinatos e 5,3 mil sequestros. O mundo esportivo ainda voltaria a ser alvo terrorista nos Jogos Olmpicos de 1996, em Atlanta, EUA, quando uma bomba explodiu, deixando uma centena de feridos e um morto. O autor era o americano Eric Rudolph que disse protestar contra o aborto e os homossexuais.
 
Nada se iguala, porm, ao impacto dos atentados de 11 de Setembro de 2001. O terror ganhava naquele momento seu rosto mais famoso: Osama Bin Laden, o comandante da rede fundamentalista islmica Al-Qaeda. O ataque matou 2.753 pessoas, escrachou as fragilidades da moderna civilizao ocidental e foi o estopim para duas guerras: a do Afeganisto e a do Iraque. Obrigou ainda mudanas de hbitos, como as revistas rigorosas de passageiros, o controle de procedimentos em voos e a submisso do cidado  e de alguns de seus direitos  a padres ditados pela obsesso global com a segurana.

Falco no gosta de relembrar os dias de terror 
 
Nas quatro dcadas que se seguiram aos Jogos Olmpicos de Munique, Paulo Roberto Falco acumulou experincias e encantou o mundo com seu futebol vistoso. Com um estilo de jogar que agregava inteligncia, habilidade e elegncia, o volante magnetizou os amantes do futebol na Copa do Mundo de 1982, fez dos romanos seus sditos e treinou, inclusive, a Seleo Brasileira. Hoje, porm, mantm o mesmo olhar ao comparar os ataques noticiados nos jornais com aquele que testemunhou em 1972.  uma agresso que parece no seguir lgica a no ser a de provocar um permanente estado de medo, lamenta. Para ele, a nica forma de reagir  seguir a vida.
 
Fotos: Kurt Strumpf/AP Photo; Esam Al-Fetori/REUTERS; Imago Sportfotodienst


10 CULTURA - O FOLHETIM GANHOU A TEV
"Selva de Pedra" entrou para a histria ao atingir 100% de audincia. A partir dela, as telenovelas passaram a refletir cada vez mais a realidade nacional

 PROTAGONISTAS - Regina Duarte e Francisco Cuoco em "Selva de Pedra" e hoje. Segundo Regina, a linguagem das novelas se modernizou: "O timing ficou mais cinematogrfico"
 
Os anos 1970 marcam o nascimento de um novo estilo de fazer novela na televiso brasileira. Em 10 de abril de 1972 chegava ao ar o primeiro captulo de Selva de Pedra, considerada uma das maiores criaes de Janete Clair. Como o ttulo j sugeria, a trama trazia para o horrio nobre a temtica urbana, inaugurando uma tendncia que perdura at os dias de hoje. Antes dela, as novelas tinham enredos mais regionalistas, a exemplo de Irmos Coragem. Com cenrio no Rio de Janeiro, Selva de Pedra trouxe para a tev o cotidiano da cidade grande, afirma Nilson Xavier, especialista no assunto e autor de O Almanaque da Telenovela Brasileira (Panda Books). A histria da artista plstica Simone Marques (Regina Duarte), que testemunha um crime e apaixona-se pelo criminoso, Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco), conseguiu o feito indito de alcanar 100% de audincia na pesquisa do Ibope  ou seja, no captulo 152, todos os aparelhos de televiso em funcionamento estavam sintonizados na Rede Globo. Lembro vagamente de comentarem sobre esse recorde uns dois dias depois que aconteceu. Ningum deu muita importncia na poca. Esse  o tipo de coisa que vai ganhando importncia com o tempo, disse Regina Duarte  ISTO.
 

CL UNIDO
 O elenco atual de "A Grande Famlia" (acima) e o da primeira verso
Tal xito, no entanto, teve consequncias duradouras, pavimentando o caminho para os ttulos seguintes. E no apenas para os folhetins. No mesmo ano estreou o primeiro sitcom (comdia de situao) da tev brasileira, A Grande Famlia, que conseguiu arregimentar para o veculo um nome consagrado do teatro, o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, autor dos enredos. Alm de preferncia nacional, essas produes passaram a ser um lucrativo produto de exportao. O Bem Amado, escrita por Dias Gomes e exibida em 1973, seria a primeira produzida em cores e a estreante em televisores no Exterior. Espelhando a realidade do Pas, Dancin Days, de 1978, mostrou o Brasil das discotecas com um clima festivo que refletia os estertores da ditadura. Vindos de um exlio de trs anos em Londres, os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, novamente em casa desde janeiro de 1972, adotariam o estilo danante em voga. Caetano excursionaria com o antolgico Bicho Baile Show, cujo roteiro abria com o clssico Odara, e Gilberto Gil invadiria as pistas de danas com Realce.

ALEGRIA, ALEGRIA
 Gilberto Gil e Caetano Veloso na volta do exlio, em janeiro de 1972 (abaixo), e em show recente:  frente das mudanas culturais
Em 1988, a novela Vale Tudo estampou o rock de Cazuza em sua abertura e retratou a nao que elegeria seu presidente por voto direto, o que no ocorria desde 1961. Protagonista de toda essa evoluo, Regina Duarte avalia os seus desdobramentos: Assistiu-se a uma mudana significativa na linguagem da novela, com uma melhora na captao da imagem e do som. O timing ficou mais cinematogrfico. A ousadia se fez presente. O Clone (2001), por exemplo, pegou carona no aparecimento da ovelha Dolly para falar sobre o assunto de maneira leve e, uma dcada depois, o autor Joo Emanuel Carneiro acertou a mo ao retratar a emergente classe C na recm-encerrada Avenida Brasil, adaptando ao momento a receita que Janete Clair ajudou a popularizar.

